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terça-feira, 24 de abril de 2012

Canção do Exílio As Avessas - Jô Soares



Canção do Exílio às Avessas
Jô Soares

Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Nào fazem cocoricó.

O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem piscina,
Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.
Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.

No meio daquelas plantas
Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.

Minha Dinda tem primores
De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Até os lagos das carpas
São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Nào permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Finalmente, aqui na Dinda,
Sou tartado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depoies de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.




Canção do Exílio As Avessas é uma paródia de Jô Soares, usando como texto base a Canção do Exílio de Gonçalves Dias.
Esse texto é um dos inúmeros textos parodísticos criados a partir do texto do poeta maranhense.


Gonçalves Dias


Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Em Canção do Exílio, Gonçalves Dias, poeta do século XIX, cantava a saudade que sentia do Brasil, e descrevia as belezas de sua terra, no momento da recém adquirida independência de Portugal. Ele encontrava-se em uma especie de exílio físico e  geográfico, pois ao escrever este poema, encontrava-se em  Coimbra, cursando a Faculdade de Direito.

Jô Soares, transforma em poesia os escândalos do governo do então presidente da República, Fernando Collor, nos anos finais do século XX (1990-1992). O poema de Jô trata da situação politica do Brasil, ano do impeachment de Collor. Ele de modo crítico e  bem humorado fala dos confortos, regalias e modernidades desfrutadas e do horror  que o eu-lírico (Collor), tem  de voltar á sua terra, Alagoas. Ele cantava a boa vida que levava na casa da Dinda, sua residencia na época.

Podemos dizer que esse dois textos são um clássico exemplo de intertextualidade.
Chamamos  intertextualidade quando um texto faz referencias a outro texto de modo implícito ou explicito.
Uma das formas de intertextualidade é a que apresentamos aqui: A paródia.
Paródia é a recriação de um texto de um ponto de vista crítico. Embora conserve as mesmas ideias do texto base, adiciona um tom jocoso, engraçado a ele.
Bahktin a firma que "Todas as palavras e formas que povoam a linguagem são vozes sociais e históricas..." (1981:78)
E podemos observar essas "vozes sociais e históricas" em ambos os textos acima mencionados. Tanto Gonçalves Dias quanto Jô Soares procuraram apresentar o seu ponto de vista e deixar as suas impressões da realidade que acontecia nos seus dias, no contexto político, social, cultural e filosófico.

A paródia, entretanto, tem como meta levar o leitor a uma reflexão crítica do que acontece no País, suas perdas, e a busca de  meios para corrigir as injustiças que ocorrem. O objetivo é informar de modo irreverente e ajudar a formar leitores reflexivos e politizados.


E você? O que achou desses textos?
Que tipo de leitor é você? Um leitor de aceitação ? Ou um leitor de objeção?
Deixe seu comentário.

Fontes : Amor e Cultura
Silvana Moreli Blog

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